Entre março e maio de 2026, visitamos 34 lojas em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre para mapear o que as marcas nacionais e importadoras estão oferecendo em botas over-the-knee. O cenário mudou: menos salto agulha extremo, mais estrutura no cano e uma paleta que finalmente conversa com o inverno brasileiro — úmido, irregular e menos previsível que o europeu.

Metodologia da pesquisa

Nossa amostra incluiu multimarcas de bairro, lojas de grife em shoppings e três feiras de moda independente. Registramos preço, material declarado, altura do cano, tipo de fechamento e disponibilidade de numeração estendida. Não aceitamos amostras de imprensa: todas as observações foram feitas em vitrine ou em provador com compra real quando necessário para teste de durabilidade.

Materiais em alta

O couro envernizado voltou com força, mas em acabamento mais fosco que na última onda dos anos 2010. Marcas de médio porte apostam em verniz parcial — apenas no bico ou no calcanhar — para reduzir marcas de dobra. O camurça tratada aparece em segundas linhas com custo mais acessível, embora exija cuidado redobrado em cidades com chuva frequente.

Couro sintético de alta densidade ganhou aceitação onde antes havia resistência. Consumidoras relatam priorizar impermeabilidade e peso leve em detrimento da etiqueta “100% couro”. Isso coincide com dados informais de vendedoras em Porto Alegre, que notaram aumento nas perguntas sobre manutenção antes da compra.

Paleta de cores

Preto e marrom café seguem dominantes, mas tons costeiros — azul petróleo acinzentado, verde musgo, areia molhada — ocupam entre 18% e 24% das vitrines visitadas, dependendo da cidade. Curitiba lidera a adoção de cores não neutras; São Paulo mantém proporção mais conservadora, concentrando inovação em marcas jovens de e-commerce.

A combinação over em tom terroso com casacos em lã cru apareceu repetidamente em editoriais locais e foi confirmada nas ruas durante nossa semana de observação na região da Oscar Freire.

Proporções e salto

O salto bloco entre 5 e 7 centímetros é o mais encontrado. Agulhas acima de 9 cm praticamente desapareceram das coleções de inverno voltadas ao uso diário. O cano ganhou estrutura interna mais leve, com barbatanas flexíveis que não comprometem a silhueta mas evitam o efeito “descaído” após horas de uso.

Modelos com bico levemente quadrado coexistem com bico fino tradicional. A tendência de bico quadrado parece mais forte no Sul, possivelmente influenciada por marcas argentinas presentes em feiras regionais.

Faixa de preço e acesso

Encontramos opções entre R$ 380 e R$ 2.400, com maior concentração na faixa de R$ 600 a R$ 1.100. O que mudou é a transparência: mais fichas técnicas visíveis e QR codes com instruções de cuidado. Ainda assim, grades amplas de panturrilha permanecem raras abaixo de R$ 500 — um ponto que abordamos em detalhe no nosso guia de medidas.

O que isso significa na prática

Se você está renovando o armário para o inverno de 2026, vale observar três critérios antes de seguir qualquer tendência: impermeabilização real (não apenas promessa de vitrine), estrutura do cano compatível com sua rotina de deslocamento e cor que combine com peças que você já usa. A moda passa; o clima brasileiro fica.

Continuaremos monitorando as coleções de julho e atualizaremos este texto se houver mudança significativa nas feiras de agosto. Sugestões e observações de leitoras são bem-vindas pelo contato.